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LOOK UP IN THE SKY
Trabalho a dois quarteirões do Shopping Metrô Santa Cruz, na Vila Mariana, Zona Sul de São Paulo. Há algum tempo parei de ir de carro para economizar gasolina e estacionamento. Entretanto, começo a rever minha decisão.
Hoje, saindo do serviço e rumando para o metrô, noto um movimento frenético em frente ao shopping. Desligado como sou, ignorei o aglomerado de pessoas e tentei entrar no metrô. Impossível. As portas estavam fechadas e toda a calçada em frente ao shopping estava bloqueada com cordões de isolamento da polícia, que desviava as pessoas para a entrada do metrô do outro lado da rua. Perguntei o que estava acontecendo e o guarda respondeu: "O arco de concreto da fachada do shopping desabou."
Olhei para cima e só então percebi que, realmente, praticamente toda a decoração da fachada do prédio não mais existia. E não era pouca coisa. A forte chuva da tarde arrancou as pesadas placas de concreto que formavam o arco na entrada do shopping. "Preciso andar olhando sempre pra cima, de agora em diante", pensei.
Chego em casa e vejo na Internet a reportagem sobre o assunto. "Melhor ir trabalhar de carro, mesmo", refleti. Então vejo, na mesma reportagem, que a chuva fez desabar uma árvore sobre um carro na Av. Pompéia. De fato, não se está seguro em lugar nenhum, tanto faz andar olhando pra cima ou ficar dentro do carro.
Essa é uma boa hora para os helicópteros começarem a ter um preço mais popular.
por Emílio Calil em 2/26/2007 09:15:49 PM
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O TIGRE, O DRAGÃO E O CONTROLE REMOTO
São exatamente 23h e estou zapeando os canais da TV antes de dormir. Fico impressionado com a diversidade que a TV a cabo oferece e com o sincronismo das emissoras em conseguiram passar o mesmo filme no mesmo horário. O famoso O Tigre e o Dragão está sendo exibido, ao mesmo tempo, no Universal Channel e no People+Arts. É fascinante saber que você paga para ter vários canais diferentes, mas que eles exibem a mesma programação simultaneamente.
Isso sem falar em quando você liga no History Channel e se depara com horas a fio de propaganda da Polishop. E tem gente que se pergunta por que Big Brother tem tanta audiência. Resta ao telespectador fazer uso da arma mais poderosa já criada pelo homem: o botãozinho de "desliga" do controle remoto.
por Emílio Calil em 2/21/2007 11:01:46 PM
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DESINTOXICAÇÃO MUSICAL
No último final de semana resolvi procurar por coisas diferentes no universo musical. De uma hora pra outra, cansei de músicas americanas. Não me entendam mal, nada contra a música americana (com exceção de atrocidades como rap, black e afins), mas enjoei de ouvir sempre a mesma coisa, todos os dias. Cansei de ligar o rádio e não ter direito à escolha. Por que tenho que engolir o que as emissoras acham que eu devo ouvir?
Algumas rádios até arriscam tocar músicas de outros países, como a Antena 1 e Alpha FM, mas a presença de canções que não provêm dos EUA é de 5% durante toda a programação. Eu queria mais. Queria ouvir algo diferente, de ritmos diferentes, de culturas diferentes. Recorri à Internet e caí na Europa. Porém, surge o primeiro grande obstáculo: o que procurar? Ou melhor, por quem procurar?
Não se pode encontrar algo sem saber o que está procurando. Foi aí que percebi o meu enorme analfabetismo musical no que tange à música européia. Qual é o melhor intérprete atual da música francesa? O que os espanhóis estão ouvindo? Ainda existem as românticas canções italianas? De memória, só vinham os artistas mais conhecidos. Apelei para eles, então. Os resultados surgiram e logo eu havia sido transportado para a França, ao som de La Bohème e Que C'est Triste Venise, de Charles Aznavour. Da terra de Descartes ainda pude relembrar Edith Piaf com La Vie En Rose, e a chorosa canção Aline de Christophe, da qual se origina o nome da minha noiva. Senti-me revigorado, como alguém que abre a janela de um quarto abafado e recebe uma brisa primaveril.
Mudei para a Itália. Quando eu era criança minha mãe ouvia dúzias de LPs de música italiana, então vasculhei nos recônditos da minha lembrança e consegui trazer de volta algumas dessas canções. Além dos conhecidos Pepino di Capri, Ricardo Cocciante e Nico Fidenco, resgatei as belas e melancólicas canções de Fred Bongusto como Bruttissima, Bellissima e Tu Sei Cosi. Sem dúvida, serviram-me de viagem no tempo e uma desintoxicação das músicas atuais que martelam na cabeça da gente.
Minha busca ainda não terminou. Continuo vasculhando a Web à procura de canções de diversos países como Noruega, Espanha, Áustria e por aí vai. Infelizmente, não tenho obtido muito sucesso - na Espanha, por exemplo, sobra Shakira e faltam as músicas tradicionais. Nem mesmo os mais poderosos softwares de P2P e Torrent conseguem ir muito longe quando não se tem o nome daquilo que estamos procurando. Tenho visitado inúmeros sites e fóruns em busca de dicas e sugestões.
Se você, leitor, tiver alguma sugestão, deixe-a em um comentário. Tanto eu quanto os apreciadores da boa música agradecerão.
por Emílio Calil em 2/13/2007 06:13:54 PM
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CIDADE CANCELA CARNAVAL POR SER BARULHENTO DEMAIS
Leio hoje no Terra:
Uma corte espanhola cancelou as celebrações de Carnaval na cidade de Santa Cruz de Tenerife, nas Ilhas Canárias, porque são barulhentas demais.
A corte interrompeu as celebrações após um grupo de cidadãos reclamar que as festividades violam os seus direitos humanos, informou a rádio estatal.
O Carnaval é celebrado em todas as cidades da ilha de Tenerife, mas as comemorações mais espetaculares acontecem em Santa Cruz e Puerto de la Cruz.
As festividades incluem paradas, danças e fogos de artifício e têm o seu clímax com o famoso "enterro da sardinha".
Em Santa Cruz, uma enorme sardinha em cima de um trono é carregada nas ruas, acompanhada de uma multidão de pessoas em luto, homens grávidos e viúvas, que derramam lágrimas em meio a uma histeria geral.
Ao ler o título da matéria, pensei ser bom demais pra ser verdade. E era. O carnaval foi cancelado, mas na Espanha. Enfim, se algum magistrado brasileiro ler essa notícia e tiver idéia semelhante, terá meu total apoio.
Lá em Tenerife uma sardinha desfila para multidões. Aqui, multidões de cabeças-de-bagre espremem-se como sardinhas para desfilar. Peixe por peixe, que acabe-se logo com essa palhaçada.
por Emílio Calil em 2/8/2007 09:20:12 PM
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TURISMO INTELECTUAL
Cansado de ler obras de ficção e buscando por literaturas mais contemporâneas, tomei conhecimento, no final de 2004, das crônicas do escritor e jornalista Janer Cristaldo. Dono de uma inteligência e erudição únicas, Janer discorre de forma divertida em seus textos sobre variados assuntos, comumente focando-se em política e suas variações. Até então eu detestava política. Só depois que passei a ler seus artigos é que entendi melhor o assunto e comecei a interpretar notícias, em vez de engoli-las, e vi que há muito a ser lido nas entrelinhas.
Cristaldo foi, por assim dizer, o pivô para que eu reavaliasse minha maneira de escrever (e pensar). Antes, apenas despejava aqui pensamentos aleatórios. Só quando me propus a escrever textos mais longos é que percebi a influência de Janer e de outros articulistas semelhantes. Influência, bem entendido, não significa imitar, mesmo porque há assuntos abordados por ele dos quais divirjo completamente.
Em meados de 2005 enviei-lhe um e-mail comentando uma de suas crônicas. Nem esperava resposta, mas ela veio. Começamos, então, a trocar alguns e-mails - bem poucos, na verdade, pois não queria incomodar.
Durante a Bienal do Livro, em 2006, Cristaldo publicou um artigo mencionando meu blog, o que aumentou bastante o número de visitantes. Ao agradecer-lhe a citação, veio o convite: "precisamos confraternizar um dia desses". Infelizmente nunca me sobrava tempo e o encontro só veio a acontecer na última semana de 2006.
Marcamos, então, em um bar de Higienópolis. Chovia naquele fim de tarde, mas a temperatura estava agradável. Escolhemos uma das mesas na calçada para nos acomodar e lá ficamos. Foram quase quatro horas de uma conversa como há muito eu não tinha.
Janer Cristaldo é o tipo de pessoa que possui uma enorme bagagem de vida, disposto a compartilhá-la com quem se sentar à mesa para ouvi-lo. Conversamos de tudo um pouco, mas eu estava interessado mesmo em suas experiências de viagens. Tenho uma fascinação pela Europa e praticamente tudo o que diz respeito ao Velho Mundo, e Janer morara um tempo em Estocolmo, além de viajar freqüentemente para o continente europeu.
Conhecer outro país através dos olhos de alguém que sabe descrever seus ares, odores e cores é, talvez, mais interessante do que realmente estar nesse país. Em certo ponto da conversa, Cristaldo me perguntou se já estivera na Europa. Diante da minha negativa, disse ele: - Invejo-te! - Como assim? - perguntei, e a resposta: "Quando partires para lá, tu ainda terás a emoção e ansiedade da viagem, de chegar a lugares novos e vislumbrar paisagens e pessoas diferentes". E continua: "Eu perdi essa emoção, hoje conheço Paris melhor do que São Paulo, e ir para lá já não me desperta a sensação de novidade". De fato, um ponto de vista interessante, o qual ele explora nesse artigo.
"Qual o país mais belo da Europa?", perguntei. Sem pensar, respondeu: "Noruega, sem dúvida! Os fiordes oferecem paisagens inigualáveis com gelo, montanhas e mar unindo-se em vistas espetaculares". E o melhor para se viver? Espanha.
As descrições dos caminhos percorridos por Cristaldo só aumentaram minha vontade de conhecer todos aqueles lugares. Perambular pelas ruas de Viena, saborear os famosos pães franceses com patês e vinhos, respirar os ares do berço da arte. Conhecer a Europa é uma das minhas metas depois de casar. Janer prontificou-se a dar-me dicas de roteiro e hospedagem.
Para Janer, só se conhece um país freqüentando seus bares. "Você não conhece um país visitando museus, precisa ir a bares e restaurantes para ter contato real com as pessoas". Cristaldo também gosta de experimentar as culinárias exóticas de cada país, mencionando um famoso peixe enlatado da Noruega que, segundo ele, tem cheiro e gosto de coisa podre, mas, "se uma nação inteira gosta, é porque deve ser bom".
De repente, uma senhora, conhecida de Janer, juntou-se a nós para pedir conselhos: - Ai, Janer! - dizia ela - estou com medo, o que vai acontecer agora que Lula foi reeleito? - Nada - respondeu ele - deviam se preocupar na época em que ele foi eleito, agora que lhe deram mais quatro anos, que ele fique por lá até o fim. Mais alguns minutos de papo e a senhora nos deixou, já menos apreensiva. Falamos bastante de política, mas eu me concentrava na Europa.
Apreciador de boa música, Cristaldo citou preferências como Mozart e disse detestar Wagner. Mencionou alguns intérpretes da música francesa, italiana e norueguesa. Também mostrou-se fã da música "mariachi" e da cantora Inezita Barroso (!). Rock ou música americana? Nem pensar.
Aproveitei para perguntar-lhe se conhecia os Estados Unidos. "Sim", respondeu, "para não dizer que sou preconceituoso, estive lá uma vez. Não gostei. Os prédios altos da 5ª Avenida causam um vento encanado muito forte"!
E o misterioso Oriente? Também não. "Se você quiser ver as pirâmides do Egito", disse, "são bonitas e valem o contato com a História, mas o Cairo é horrível! Quente e sujo! Prefiro o conforto dos hotéis europeus". Japão, China e afins também nunca despertaram interesse em Janer, mas uma cidadezinha perto do Pólo Norte chamou sua atenção.
"Gostaria de conhecer o bar dessa cidade, que possui 1500 habitantes e 3000 ursos! As pessoas precisam andar armadas o dia todo caso surja um urso intrometido". Perguntei-lhe o que tinha para se fazer num lugar desses: "Nada! Não há nada para fazer, e é exatamente por isso que ainda não fui para lá, pois nunca viajo sozinho e é difícil convencer uma companhia a partilhar tal aventura".
A conversa desenrolou-se por outros temas: literatura, arte, religião, comportamento. Chegamos ao ponto de esgotar certos assuntos e ficarmos apenas parados, bebendo e olhando o movimento na rua.
Este texto renderia muitos parágrafos mais se eu fosse comentar detalhadamente essas quatro horas de conversa. Fiz uma verdadeira viagem intelectual através das descrições e opiniões de Janer. Um contato enriquecedor, sem dúvida.
Ao levantarmos para ir embora, notei um belo restaurante do outro lado da rua. "É muito bom", afirmou Cristaldo, "aos sábados servem uma feijoada excelente aí". Eu disse que viria experimentar um dia desses, e ele me pediu que marcasse a data e, se quisesse companhia, era só chamar.
Sem dúvida, caro Janer, sem dúvida. E desta vez, tentarei marcar para antes do fim do ano.
por Emílio Calil em 1/19/2007 12:15:15 AM
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FELIZ 2007
A todos os leitores do blog, meus mais sinceros votos de sucesso e felicidade em mais este ano que se inicia. Obrigado por prestigiarem este meu espaço durante o ano de 2006 e que, em 2007, possamos continuar nos encontrando por aqui. E desejo - é claro - ver o número de visitantes sempre crescendo. Em breve publicarei um novo artigo descrevendo um agradável encontro que tive na semana entre natal e ano novo, aguardem.
Abraços,
Emílio Calil
por Emílio Calil em 1/1/2007 09:56:20 PM
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OSSOS DO OFÍCIO
O setor jornalístico brasileiro finge surpresa e estupefação após a recente divulgação da carta de um ex-jornalista da Rede Globo que, revoltado pela não renovação de seu contrato, resolveu pôr a boca no mundo e contar o que todos já sabiam: que a mídia brasileira é completamente manipulada.
O repórter Rodrigo Vianna, em sua carta, joga a sujeira no ventilador e acusa o núcleo jornalístico da Rede Globo de manipular informações durantes as últimas eleições a favor do PSDB e em detrimento do PT - o que, aparentemente, foi um esforço inútil. A carta é extensa, para lê-la, clique no link do primeiro parágrafo. Mas gostaria de comentar alguns pontos do texto de Vianna:
"Intervenção minuciosa em nossos textos, trocas de palavras a mando de chefes, entrevistas de candidatos (gravadas na rua) escolhidas a dedo, à distância, por um personagem quase mítico que paira sobre a Redação: o fulano (e vocês sabem de quem estou falando) quer esse trecho; o fulano quer que mude essa palavra no texto".
- Desculpe, mas não sei de quem você está falando. O tal "fulano" pode ser mil pessoas que me vêm à cabeça. Já que a carta possui cunho de desabafo e denúncia, por que não dar nomes aos bois?
"Ouvi, de pelo menos 3 pessoas diretamente envolvidas com o SP-TV Segunda Edição, que as perguntas para o Serra, na entrevista ao vivo no jornal, às vésperas do primeiro turno, foram rigorosamente selecionadas. Aquele diretor (aquele, vocês sabem quem) teria mandado cortar todas as perguntas desagradáveis".
- Mais um personagem oculto, o "diretor-vocês-sabem-quem". Novamente, por que não tornar público os responsáveis? Fica a pergunta: Se a intenção era derrubar o PT, por que a Globo nunca questionou a fundo os membros do partido sobre o Foro de São Paulo, sendo que a simples tentativa de explicar a existência desse órgão colocaria por terra muitas candidaturas?
"Quando entrei na TV, em 95, lá na antiga sede da praça Marechal (...), a caminhada pelas calçadas do centro da cidade obrigava-nos a um salutar contato com a desigualdade brasileira. Hoje, quando olho pra nossa Redação aqui na Berrini, tenho a impressão que estou numa agência de publicidade. Ambiente asséptico, higienizado. Confortável, é verdade. Mas triste, quase desumano".
- Salutar contato com a desigualdade, enquanto o escritório da Berrini é desumano? Isso me cheira à velha demagogia de que "pobre é bom, rico é ruim". A evolução parece gerar horror em certas pessoas. Por que a mudança de ambiente seria nociva para Vianna se ele passava a maior parte do tempo na rua, fazendo reportagens?
Eu não duvido da veracidade da carta, mas, para mim, ela não revela nada de mais. Ou, pelo menos, nenhuma novidade. Só acho que, se era pra chutar o pau da barraca, deveria ser mais incisiva, afinal, desgraça pouca é bobagem. Se ele for processado pela Globo, então que seja por acusações realmente chocantes.
Muitas pessoas enxergam o jornalismo como uma profissão quase sacerdotal (inclusive os próprios jornalistas), mas, na verdade, ela é apenas isso: uma profissão. Há deveres, responsabilidades, obrigações, benefícios e recompensas como qualquer outra. Certa vez, fui fazer um plano dentário e a moça que preenchia a ficha perguntou minha profissão. Ao saber que eu era jornalista, ela começou um escândalo na sala, fazendo questão de dizer para todo mundo que havia um jornalista ali. E eu querendo me enfiar debaixo da mesa. Pra que tudo aquilo?
Dá-se mais valor à profissão do que ao caráter, como se o fato de ser um engenheiro ou advogado tornasse a pessoa um ser superior. Claro que existe o status e o reconhecimento, mas isso jamais deve subir à cabeça. "Títulos são distinções para quem não tem nenhuma outra", dizia um antigo ditado oriental.
Não existe profissão alguma sobre a face da terra que obrigue uma pessoa a ser justa, honesta e imparcial. Essas qualidades são inerentes ao caráter individual de cada um, que acabam refletidas no dia-a-dia, independente da profissão. Mas o oposto não ocorre, ou seja, a profissão não influencia no caráter. Do contrário, jamais existiriam maus médicos, advogados ou policiais.
Se estou em um ambiente de corrupção, tenho duas alternativas: ou me torno corrupto também (revelando o mau caráter latente); ou simplesmente saio desse ambiente por me sentir incompatível. "Ah, mas se eu não aceitasse aquela condição, perderia o emprego, e tenho contas para pagar", dirá você em autodefesa. Sim, mas perceba que a escolha foi sua, pois, ainda que sob coação, sempre existirá a opção do "não". Cabe a cada um de nós saber onde pesa a consciência. Há deslizes e enganos, claro, e eu mesmo já fiz coisas de que me arrependi. Mas que me serviram de escola para não cair no mesmo truque novamente.
Voltando ao desabafo de Vianna, cito o jornalista Heródoto Barbeiro: "Não existe imparcialidade na nossa profissão. O jornalista é sempre parcial, porque ele não consegue descrever os fatos sem colocar uma dose do que ele pensa, do que ele sente". Heródoto diferencia imparcialidade de isenção e diz que o jornalista não pode aceitar falar mentiras ou manipular a informação. "Se a empresa me manda dizer uma mentira e eu concordo, sou tão responsável quanto ela".
Rodrigo Vianna entrou na Rede Globo em 1995, por isso, participou da cobertura de duas eleições antes da deste ano - 1998, com FHC sendo reeleito; e 2002, com a vitória de Lula. Vianna trabalhou quase doze anos na Globo e só nesta última eleição veio a perceber a manipulação de informações?
Vianna diz que não apresentou esta carta antes porque tem um contrato em vigência com a Rede Globo até janeiro de 2007. Caso apresentasse a carta antes teria que pagar uma multa de mais de R$ 800 mil. Ele não pediu demissão, nem foi demitido, foi avisado de que seu contrato não seria renovado. Só depois de avisado, tornou pública a carta que já estava pronta. Teria Vianna publicado a carta caso seu contrato fosse renovado?
Heródoto Barbeiro pode ter a resposta: "O jornalista tem de estar preparado para colocar o seu emprego à disposição toda vez que tiver um conflito de consciência".
por Emílio Calil em 12/21/2006 06:02:42 PM
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